sábado, 4 de dezembro de 2010

Vibrações fransciscanas

Poderia ser apenas mais uma apresentação como qualquer outra, mas algo de especial estava-nos reservado.


Fazem apenas duas semanas que reapresentamos Louco é Tu, 1 ano depois da última apresentação, no festival Lema 20 anos. O elenco sofreu algumas baixas e não tivemos muito tempo para ensaiar os substitutos, o que gerou uma carga considerável de estresse no seio do grupo. Mas o Lema tem uma longa história de superação e dessa vez não seria diferente.

A apresentação foi no centro Espírita Missionários da Luz, aqui em Fortaleza. A apresentação se deu de forma satisfatória e o público saiu contente com o que viu, mas intimamente sabíamos que havia faltado o que é o mais importante no trabalho que nos propomos fazer, envolvimento integral, apesar do esforço da maioria dos integrantes.

Não é simplesmente técnica, é acima de tudo doação, entrega, amor transformado em arte. Essa é uma das peculiaridades de quem milita na arte espírita. A técnica não é o mais importante, nem mesmo o talento. Eles são acessórios a serviço de uma causa maior. E o brilho do artista precisa ser diminuído para que a mensagem levada seja a grande estrela no palco.

Precisávamos seguir com a jornada de trabalho e honrar com nossos compromissos, mais uma vez faltando um pedaço, pois um dos integrantes resolveu deixar o grupo nessa última apresentação, esse foi um dos motivos para que não estivéssemos tão plenos naquela situação. É nessas horas que as grandes amizades se manifestam e conseguimos nessas duas apresentações contar com dois integrantes afastados do grupo, Berg e Allan, que literalmente salvaram o espetáculo.

Chegamos a Canindé, cidade à 108 km de Fortaleza e conhecida pela peregrinação franciscana, o maior destino da romaria de São Francisco de que temos notícia em nosso país. Possui inclusive a maior estátua sacra do mundo, a do Poverello de Assis. Nesse verdadeiro santuário católico de nosso Estado, fomos convidados pelo movimento espírita local, para apresentar Louco é Tu, um dos principais espetáculos do grupo, de abordagem complexa, linguagem doutrinária rebuscada e estrutura estética de vanguarda. Um mix de drama e comédia, cenário psicodélico, figurino extravagante e interpretações que vão do clássico ao popularesco. Nada convencional para uma cidade extremamente conservadora.

O Pároco local, que já proferiu palestras no Centro Espírita, cedeu gentilmente o espaço cultural da paróquia para essa apresentação. Os aproximadamente 230 lugares disponíveis no auditório foram vendidos, apesar de algumas cadeiras vagas.


Eu estava exausto, praticamente sem dormir a 36 horas e tínhamos tido muitas dificuldades para montar o cenário, sem falar no calor que estava fazendo, causando uma sensação ainda maior de desgaste físico. Mas estava motivado para o trabalho, como todo o grupo, que trabalhou o dia todo num clima de muita harmonia.


Pouco antes de entrarmos em cena, convidei o grupo para a prece habitual, solicitando a todos o envolvimento com a espiritualidade para o trabalho, porém quando inicie a exortação, saltou pelos meus lábios a célebre expressão do hino a Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”!


Automaticamente recordei de onde estávamos e da provável presença de irmãos fransciscanos no ambiente. A atmosfera instantaneamente se modificou, senti aquele envolvimento próprio das almas nobres e roguei confiante que nos amparassem para a apresentação.


Logo que entramos em cena, nos primeiros momentos de minha atuação no papel de Freud, percebi a diferença vibratória e fui me permitindo interpretar nessa “parceria” sutil e anônima. Essa é, a meu ver, uma das contribuições que nós artistas espíritas podemos dá ao meio artístico laico, no entendimento de algo que é comum a todas as pessoas, porém que poucos têm conhecimento. E foi assim por quase toda a apresentação, em vários momentos especiais, onde o texto propõe uma reflexão mais profunda ao entendimento dos processos obsessivos nas questões relativas à loucura.


Foi sem dúvida uma apresentação especial para todos nós. O público estava completamente envolvido, os atores estávamos em êxtase, a organização local comemorava o sucesso do evento e resolvi após a apresentação, partilhar com o público essas impressões sobre a presença dos franciscanos no auditório e mais uma vez saltou de minha boca uma expressão totalmente incomum para mim e que não passou pelo filtro das vias cognitivas, “Pai Francisco”. Essas palavras vieram acompanhadas de uma onda vibratória que invadiu minha alma embargando-me a voz. Era o clímax de um encontro sublime, de um intercâmbio velado, de trocas profundas, porém onde a oração tão cantada em reverência ao grande imitador do Cristo, ganhava mais uma vez concretude na ação silenciosa dos seus seguidores que muito mais deram que receberam dessas pobres almas em busca de melhor sentir a presença do Cristo em suas vidas.


Certamente aprendemos um pouco mais sobre simplicidade, pois já tivemos em teatros dentre os mais belos do país, em eventos de grande projeção pública, mas nem sempre estivemos tão envoltos naquelas vibrações que nos levam a dizer com Francisco: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”.





















2 comentários:

Aldeã, disse...

Uma grande emoção tomou conta de mim ao ler este texto...saudade, nostalgia, um certo sentimento de culpa, uma certeza inexplicável de que ainda retornarei, um amor tão grande por este grupo!!!!

Reginauro disse...

Puxa Ana, deve ser a mesma emoção que estou sentindo agora ao ler essa sua mensagem. Saiba que sempre estaremos de braços e corações escancarados para recebê-la. Grande beijo.